Ninguém, por exemplo, espanca a língua portuguesa, a lógica e os fatos como ele. Mas, admito, é um senhor bem-sucedido: sabe arrumar emprego. Um leitor me envia uma entrevista que ele concedeu ao jornal O Globo no dia 5 deste mês. Eu não a havia lido. Não adianta! Sader não consegue me espantar. Não por acaso, eu o trato como uma espécie de pequeno país mental: os Emirados Sáderes.
De outro post em seu blog na Veja, publicado no mesmo dia:
Emir Sader, aquele que “fusila“ o bom senso e que Dilma pode nomear para presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa, já cometeu atrocidades maiores. De todos os seus analfabetismos, nenhum supera “Getulho Vargas”, acho eu, assim mesmo, com “lh”. Afinal, eis aí um brasileiro que se tornou um dos “Vultos de Nossa História” — eu tinha um livrão com esse nome, que ganhei ainda criança. Lia as biografias com enorme interesse.
Sader, um marxista que tem todos os pés muito fincados no chão, é íntimo da literatura política da espoliação, certo? Isso não o impediu de cravar “expoliação“ em uma de suas catilinárias esquerdofrênicas. Num manifesto contra um político que ele considerava “reacionário”, acusou o outro de “opróbio“. Certamente “opróbrio” lhe pareceu um erro imperdoável.
Não há esquerdista que desconheça Noam Chomsky, certo? Talvez Emir, daí ter grafado o nome do homem com “i”: “Chomski“. Recentemente, reclamando de uma personagem política da oposição que havia feito um ensaio fotográfico, esse gênio da raça a acusou de “pousar“ para fotografias.
Do mesmo Reinaldo Azevedo, publicado no caderno +Mais!, da Folha:
6 de agosto de 1995
Esquerda e direita em tempos de burrice e de espertezaREINALDO AZEVEDO
EDITOR-ADJUNTO DE POLÍTICA
Em tempos de macarthismo circense -quando os ``inteligentes" dos segundos cadernos se dedicam a reescrever a história com a purulência de seus tropos e fantasias-, um livro que não se limita a justificar o presente, mas a interrogá-lo, merece saudação. É o que faz Emir Sader em ``O Anjo Torto - Esquerda (e Direita) no Brasil", editado pela Brasiliense.
Seu melhor público será o secundarista ou universitário dos primeiros dias, interessado nas linhas gerais do pensamento de esquerda e de direita e na forma como o Brasil emprestou cor local a disputas que ditaram, em muitos momentos, os destinos de todos nós.
``O Anjo Torto" não tem grandes pretensões e se sustenta num truísmo: esquerda não é direita, e direita não é esquerda.
Ó tempos, ó costumes! Se um truísmo tem de ser demonstrado, o vencedor já não se contenta em fazer pender a espada sobre o vencido, mas pretende ainda erigir o monumento de sua vitória sobre os despojos do outro. Quer deixá-lo pobre de verdade.
``O Anjo Torto" segue a trilha de ``Direita e Esquerda", do italiano Norberto Bobbio, que observa: ``Quem acredita que as desigualdades são um fatalismo, que é preciso aceitá-las (...) sempre esteve e estará à direita, assim como a esquerda nunca deixará de ser identificada nos que dizem que os homens são iguais, que é preciso levantar os que estão no chão".
Sader reconstitui com brevidade e didatismo, mas sem facilitações, as encruzilhadas, vitórias e fracassos da esquerda. Os patrulheiros do antiesquerdismo ``fashionable" podem ficar tranquilos. O autor não absolve a esquerda de seus erros. Mas escreve do ponto de vista de um homem que Bobbio definiria como esquerdista.
Burro, ao tentar responder a questão que perpassa o livro -o que é ser de esquerda hoje?-, responde: ``Significa participar da reinvenção concreta de uma nova sociedade, baseada na justiça social e na solidariedade".
Em vez de uma resposta, Sader nos apresenta o que parece ser uma sentença ética. De que justiça, então, nos falam os que pregam e promovem a desregulamentação da economia, a privatização de estatais, o corte nos gastos sociais? Não estão a promover a justiça social? Não o fazem para ``defender os movimentos de libertação, as populações esfomeadas" de Bobbio? Não são, a seu modo, esquerdistas, só que inteligentes?
Responde Perry Anderson, professor da Universidade da Califórnia, que não são esquerdistas, desprezam a justiça social, acham o estado de bem-estar (``welfare state") um excrescência, têm horror à social-democracia e defendem um programa -o neoliberal- cuja matriz não está fundada na eficiência, mas na ideologia.
As idéias de Anderson estão expostas no texto ``Balanço do Neoliberalismo", transcrição de uma conferência proferida no Rio, no ano passado, que integra o livro ``Pós-Neoliberalismo", do qual Sader é um dos organizadores.
``Anjo Torto" sintetiza o ideário neoliberal como o adversário de turno da esquerda. E eis um pecadilho de Sader: não releva a evidência de que o neoliberalismo tem fracassado na tentativa de revigorar o capitalismo.
Ao dar sua ``aula" na Universidade Central da Venezuela, por ocasião do título de doutor ``honoris causa" que recebeu daquela instituição, o presidente Fernando Henrique Cardoso resumiu 40 anos de pensamento autonomista na América Latina -dos cepalinos ao período pós-Teoria da Dependência- e enxergou uma eloquente lacuna: ``Os ideais de justiça e igualdade prevaleciam sobre os da liberdade".
Ora, exceção feita a Cuba, não há na América Latina histórico de liberdade de menos em cenário de justiça e igualdade demais. Ao contrário, o capitalismo autoritário elevou ao máximo as injustiças e desigualdades em ambiente de liberdade nenhuma.
Não fosse FHC inteligente, estaríamos diante de um estupendo ``lapsus linguae". A liberdade como valor em si, ao qual se podem opor justiça e igualdade, não é uma ``ratio" esquerdista. Quando menos, a esquerda inverte a fórmula, como lembra Bobbio: ``Uma das conquistas mais claras (...) dos movimentos socialistas (...) é o reconhecimento dos direitos sociais ao lado dos da liberdade. Trata-se de novos direitos (...), consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem".
Diz ``O Anjo Torto", seguindo essa trilha, que a esquerda ``significa a transformação da democracia política numa democracia de conteúdo social".
Sader escreveu um livro simples e necessário. Reafirma, em tempos em que esperteza política é vendida como inteligência e esta como categoria política, a lógica da diferença. Tímido, chamou seu livro de ``O Anjo Torto", um convite à fala àqueles que escolheram ``ser gauche na vida".
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