Reinaldo Azevedo publicou um texto na Veja, sobre o
filme Tropa de Elite. Alguns dias atrás, dizia em seu blog que não via o
filme com bons olhos. Algo fez ele mudar de idéia, e provavelmente foi a
suposta reação de alguns setores de "esquerda". Para isso, pretendeu
comentar sobre Kant e Foucault.
É constrangedor falar sobre essa situação do artigo
da Veja. Certa vez esse jornalista mencionou como é adepto do debate "de
idéias", e não de imputações gratuitas. Duas coisas então: deve-se
comentar como o adepto ao debate "de idéias" não teve respeito algum no
texto por elas; e como se pode conceder voz a quem expõe "idéias" tão
mal colocadas, beirando a má fé. O debate público deve ser um debate de
idéias, e não apenas absurdos jogados na esfera pública. Uma pessoa
comum escrevendo o mesmo texto de Reinaldo Azevedo seria ignorada pelas
imprecisões. Idéias ruins tendem a ser ignoradas. O problema é quando o
país concede voz privilegiada a esse tipo de posição.
Vejamos (mencionando trechos de seu artigo na Veja):
Por que tanta fúria? A resposta é simples: Tropa de Elite comete a ousadia de propor um dilema moral e de oferecer uma resposta. Em tempos de triunfo do analfabetismo também moral, é uma ofensa grave.
Em outras palavras, há um dilema moral no filme, e o
próprio filme forneceria a resposta. Azevedo não concorda nem com o
diretor do filme, nem com o ator Wagner Moura. Discorda que o filme seja
feito para propor um debate, ou que não foi feito para identificações
fáceis (Nascimento como "mocinho", etc.). Assume, portanto, que a
"resposta" correta para o dilema moral é a do policial.
E começa por Kant:
Qual dilema? Não há como ressuscitar o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), mas podemos consultar a sua obra e então indagar ao consumidor de droga: "Você só pratica ações que possam ser generalizadas?". Ou por outra: "Se todos, na sociedade, seguirem o seu exemplo, o Brasil será um bom lugar para viver?". O que o pensamento politicamente correto não suporta no Capitão Nascimento, o anti-herói com muito caráter, não é a sua truculência, mas a sua clareza; não é o seu defeito, mas a sua qualidade. Ele não padece de psicose dialética, uma brotoeja teórica que nasce na esquerda e que faz o bem brotar do mal, e o mal, do bem. Nascimento cultua é o bom paradoxo. Segue a máxima de Lúcio Flávio, um marginal lendário no Brasil, de tempos quase românticos: "Bandido é bandido, polícia é polícia".
Aqui começa o desserviço ao Pensamento. Quando Kant
falava sobre o imperativo categórico, afirmava que toda ação deveria ser
regida por uma regra alçada à universalidade. Portanto, nem visando os fins, nem utilizando os outros seres racionais como meio.
É a velha afirmação, tornada chavão: "aja de forma que a máxima de sua
vontade poderia, ao mesmo tempo, se manter como um princípio para uma
lei universal". Azevedo tentou se referir a isso. Mas como nunca leu
Kant, acabou se esquecendo de três coisas: (1) e se estendermos essa
máxima também ao Capitão Nascimento e às práticas do BOPE? (2) Azevedo
desconsidera que, para Kant, a regra da ação que prescreve o imperativo
categórico nada tem a ver com inclinações e conteúdos empíricos. O
imperativo categórico implica que não hajam móveis sensíveis para uma
moral. (3) Se Azevedo lesse Kant, veria que a posição "paradoxal" do
policial do Bope não poderia ser sustentada. Como preservar a
universalidade da regra sabendo que bandido é uma coisa e polícia outra,
mas que para que a "lei" se faça pode-se estourar a cabeça do outro com
uma escopeta, ou torturar enfiando um cabo de vassoura na bunda?
Azevedo pode expor o juízo que quiser. Mas não há Kant algum aqui, pleno
ou "rústico" ou qualquer outro, como quer o colunista da Veja.
A cena do filme já é famosa: numa incursão à favela, o Bope mata um traficante. No grupo de marginais, há um "estudante". Aos safanões, Nascimento lhe pergunta, depois de enfiar a sua cara no abdômen estuporado do cadáver: "Quem matou esse cara?". Com medo, o rapaz engrola uns "não sei, não sei". Alguns tapas na cara depois, acaba respondendo: "Foram vocês". E ouve do capitão a resposta que mais irritou o Bonde do Foucault: "Não! Foi você, seu maconheiro". Nascimento, quem diria?, é um discípulo de Kant. Um pouco desastrado, mas é.
Com certeza, imagine só.
A narrativa é sempre pontuada por sua voz em off. Num dado momento, ele faz uma indagação: "Quantas crianças nós vamos perder para o tráfico para que o playboy possa enrolar o seu baseado?"
Uma boa questão social e jurídica, especialmente
visível no Rio de Janeiro. Mas que nem de longe se aproxima ao
"kantismo" de Nascimento.
O Bope que aparece no filme de Padilha é incorruptível, mas violento. O principal parceiro de Nascimento chega a desistir de uma ação porque não quer compactuar com seus métodos, que, fica claro, são ilegais. Trata-se de uma mentira torpe a acusação de que o filme faz a apologia da tortura. Ocorre que o ódio que a patrulha ideológica passou a devotar à obra não deriva daí. Isso é pretexto. O que os "playboys" do relativismo rejeitam é a evocação da responsabilidade dos consumidores de droga na tragédia social brasileira. Nascimento invadiu a praia do Posto 9, em Ipanema.
Com certeza, foi isso que Nascimento fez. Invadiu
simbolicamente o posto 9. Mas isso não quer dizer que os "playboys do
relativismo" são a esquerda, nem que o "relativismo" corresponda a uma
atitude intelectual séria. Os playboys são o pastiche do Foucault. São
Playboys, mas não são Foucault. Daí continua o filósofo-jornalista:
já empreguei duas vezes a expressão "Bonde do Foucault" para me referir à quadrilha ideológica que tentou pôr um saco da verdade na cabeça de Padilha: "Confesse que você é um reacionário". "Bonde", talvez vocês saibam, é como se chama, no Rio de Janeiro, a ação de bandidos quando decidem agir em conjunto para aterrorizar os cidadãos. Quem já viu Tropa de Elite sabe: faço alusão também a uma passagem em que universitários – alguns deles militantes de uma ONG e, de fato, aliados do tráfico – participam de uma aula-seminário sobre o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). Falam sobre o livro Vigiar e Punir, em que o autor discorre sobre a evolução da legislação penal ao longo da história e caracteriza, de modo muito crítico, os mé
todos coercitivos e punitivos do estado.
Azevedo viu setores da esquerda chamando Padilha de
"reacionário". Só não viu bem o filme. A atitude de Padilha não é nem
reacionária, nem revolucionária. O filme é contado sob o ponto de vista
dos policiais. Isso não quer dizer que o ponto de vista seja correto, ou
errôneo. Creio que não seja muito difícil o esforço do pensamento para
pressupor que, contando a visão do policial, o filme tenta propor alguma
discussão.
Surgiu uma moda bem ingênua após o filme,
caracterizando Nascimento como um herói, ou um novo Chuck Norris. Ora,
isso é uma interpretação grosseira, que permite duas conclusões: ou
herói, ou reacionário. Azevedo parece solidário a essas interpretações.
Está tão errado quanto o "esquerdista" que se coloca no outro extremo.
Abandonam o diálogo, e apenas trocam ofensas em um dos dois lados de uma
interpretação bem duvidosa. Mas continua sobre Foucault:
No Brasil, os traficantes de idéias mortas são quase tão perigosos quanto os donos dos morros, como evidenciam nossos livros didáticos. Foucault sempre foi um incompreendido. Por que digo isso? Porque ele era ainda mais picareta do que seus críticos apontaram. No filme, aluna e professor fazem um pastiche de seu pensamento, e isso serve de pretexto para um severo ataque à polícia, abominada pelos bacanas como força de repressão a serviço do estado e suas injustiças. Sim, isso pode ser Foucault, mas Foucault era pior do que isso. Em Vigiar e Punir, ele fica a um passo de sugerir que o castigo físico é preferível às formas que entende veladas de repressão postas em prática pelo estado moderno. Lixo.
Foucault sempre foi um incompreendido. Continua
incompreendido tanto pelos personagens do filme, quanto pela
"esquerdopatia" enxergada por Azevedo, quanto por ele mesmo. Reinaldo
Azevedo nunca leu Foucault (como se pode ver no seu texto), mas ousou,
em sua não-leitura, oferecer um juízo. Nada pior, em qualquer meio das
letras, do que comentar um autor sem o esforço da leitura. Ou o
jornalismo mudou, nos últimos anos?
Vejamos a homenagem ao não-pensamento: o pastiche da aluna e do professor ao pensamento de Foucault é um pastiche. Mas não é Foucault.
Certa vez Foucault escreveu um texto intitulado "As monstruosidades da
crítica". "Monstruosidade" é uma boa palavra para a visão de Azevedo.
Nem em Vigiar e Punir, nem em qualquer outro texto de Foucault,
encontra-se qualquer idéia que esteja "a um
passo de sugerir que o castigo físico é preferível às formas que
entende veladas de repressão postas em prática pelo estado moderno".
Isso significa ler Foucault pela hipótese repressiva (como fazem os
alunos do filme), e pressupor que haveria uma hierarquia de formas de
repressão: velada ou manifesta, atenuada ou supliciada, punição corporal
ou moral. Foucault expõe como aparecem na cultura ocidental diferentes
dispositivos, e como eles correspondem a práticas institucionais e
discursivas. Mas nada disso implica a posição, nem de longe, de sugerir
que uma forma de punição seja melhor do que outra. Azevedo não leu
Foucault nem Kant, afirmou idéias contrárias às dos autores, e ainda fez
isso deliberadamente em um veículo de imprensa, formador de opinião.
O personagem Matias, um policial que faz o curso de direito, é o elo entre o Capitão Nascimento, o kantiano rústico, e esse núcleo universitário. A seqüência em que essas duas éticas se confrontam desmoraliza o discurso progressista sobre as drogas e revela não a convivência entre as diferenças, mas a conivência com o crime de uma franja da sociedade que pretende, a um só tempo, ser beneficiária de todas as vantagens do estado de direito e de todas as transgressões da delinqüência.
Está certo. É isso mesmo,
há um confronto entre éticas, e uma convivência do crime com setores da
sociedade. Mas Azevedo mostra parcialidade, pois a mistura é generalizada no
filme. Para isso basta ver como é apresentado o "sistema". Não se trata
apenas de expor a hipocrisia do "bonde do Foucault", dos
intelectualóides maconheiros. O "sistema" vai do consumidor ao morro,
passando pela polícia. Faz parte dele o dono da zona, mas também o
comerciante comum, o "homem de bem". Financiam favores dos policiais. O
filme expõe toda a hipocrisia, e Nascimento, mesmo sem querer, não está isento dela.
Por isso o "Bonde do Foucault" da imprensa tentou fazer um arrastão ideológico contra Tropa de Elite. Quem consome droga ilícita põe uma arma na mão de uma criança. É simples. É fato. É objetivo. Cheirar ou não cheirar é uma questão individual, moral, mas é também uma questão ética, voltada para o coletivo: em qual sociedade o consumidor de drogas escolheu viver? Posso assegurar: não há livro de Foucault que nos ajude a responder.
O problema é bem mais complexo do que apenas o
consumo da droga pelo playboy. Deveríamos pensar também que o Brasil é
um ponto de passagem para outros países. De todo modo, o filme toca no
problema.
Quanto a Foucault, até ousaria dizer que ajudaria sim a resolver. Estudos na linha de Da Nação da Norma poderiam auxiliar na resposta.
Após esses parágrafos, Azevedo chega enfim ao ponto: o filme expõe "a
falência de um sistema de segurança em que, segundo Nascimento, um
policial ‘ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra’".
Muda-se o sistema, mas a regra de funcionamento dele permanecerá; os
policiais continuarão corruptos sob outro meio, a não ser que mude o
próprio fundamento da corrupção.
Pena que Azevedo abandone a idéia. Talvez explorá-la o
fizesse mudar o tom do texto, saindo da confortável posição do debate
infecundo e estereotipado tal como se faz entre "esquerdopatas" e a
"direita anaeróbica". Saindo dessa troca de farpas entre
intelectualóides que nada contribuem para o debate, talvez fosse
possível um debate efetivo. Mas Azevedo volta ao "debate" (se isso fosse
um debate, e não apenas imputações que não oferecem diálogo algum com
seus opositores):
Pouco me importa o que pensam Padilha e Moura. O que interessa é o filme. E o filme submete a um justo ridículo a sociologia vagabunda que tenta ver a polícia e o bandido como lados opostos (às vezes unidos), mas de idêntica legitimidade, de um conflito inerente ao estado burguês. O kantiano rústico "pegou geral" o Bonde do Foucault.
Novamente: o filme expõe ao ridículo não uma "sociologia vagabunda". Um soció
logo com mínima formação (seja lá qual for sua linha) ri desse tipo de declaração, como o filósofo gargalha ao ver o Kant exposto acima. Ocorre com certeza o pastiche, a banalização do ensino que separa o que um pensador tem a dizer, da postura daqueles que o estudam. Mas daí a dizer que o pensamento por si só é "vagabundo"…
logo com mínima formação (seja lá qual for sua linha) ri desse tipo de declaração, como o filósofo gargalha ao ver o Kant exposto acima. Ocorre com certeza o pastiche, a banalização do ensino que separa o que um pensador tem a dizer, da postura daqueles que o estudam. Mas daí a dizer que o pensamento por si só é "vagabundo"…
O que é mais notável nisso tudo? É nos perguntarmos
em que tipo de país vivemos. Tanto assistindo o filme, quanto vendo o
tipo de atitude desse texto. Vivemos em um país onde alguém pode falar
de assuntos que não conhece desse jeito, sem critério algum. Azevedo não
leu nem Kant, nem Foucault. Ignora as idéias dos dois, expõe juízos
selvagens. Não adianta dizer que não tem importância a exposição dele
sobre filosofia. Se assim fosse, para quê utilizar filósofos que nem
eram chamados no filme? "Não há como ressuscitar o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), mas podemos consultar a sua obra e então…".
Azevedo esbarra no verdadeiro debate, o da situação
do Brasil contemporâneo, e do estatuto de suas práticas. Penso que essa
foi a maior contribuição do filme, formular boas questões. Escolher
Nascimento como fascista ou herói é desmerecer o que o filme tem a
contribuir. Se Nascimento é um desses dois, a questão já está
respondida. Basta apenas escolher.
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