Mas o que é vendido como furo jornalístico e consulta de fontes não passa ou de relações públicas — jornalistas simpáticos a determinado político apenas reproduzem o que lhes dizem seus assessores — ou, pior!, de um verdadeiro press release emitido por uma assessoria de imprensa.
Este é o caso da "reportagem" Crise faz presidente Dilma Rousseff demonstrar irritação, publicada na Folha em 12/07/2015
O texto é assinado por Marina Dias, escalada para fazer a cobertura do Partido dos Trabalhadores em Brasília durante o governo Dilma Rousseff.
Marina, que é filha de José Américo Dias, ex-Secretário Nacional de Comunicação do PT, e afilhada do então ministro de Comunicações da Dilma, Edinho Silva, assina uma matéria que parece ter sido encomendada ou redigida pelos parentes poderosos.
"Agitada, andando em círculos e gesticulando muito, a presidente Dilma Rousseff olhou para os auxiliares e bradou, indignada: "Não sou eu quem vai pagar por isso. Quem fez que pague".
Ela estava furiosa. "Não devo nada para esse cara, sei da minha campanha", afirmou, referindo-se às suspeitas lançadas pelo empresário Ricardo Pessoa sobre as doações à sua campanha à reeleição.
Batendo com força a palma de uma mão na outra, Dilma insistiu: "Eu não vou pagar pela merda dos outros". Ela não disse a quem se referia, e ninguém achou que era conveniente perguntar."
A "reportagem" mostra uma Dilma indignada porque inocente. Uma vítima de ações de terceiros que, curiosamente, nunca são nomeados. Alguém que se beneficiou de atitudes ilícitas (ou, como colocado pela ex-presidente, "merda dos outros [...] quem fez que pague"), mas sem saber de nada. Uma vítima, pega de surpresa pelas ações de assessores e apoiadores que a ajudaram em sua reeleição.
A pergunta que fica: Quem — além da própria Dilma ou de seus assessores — teria interesse em revelar tal conversa (se é que ela de fato ocorreu...)? A quem a história de uma Dilma indignada, surpreendida por crimes desconhecidos por ela beneficia?
A matéria, que em um primeiro momento parece ser um grande furo, um trabalho investigativo impressionante é, na verdade, um press release desavergonhado produzido por quem tinha pai e padrinho dentro do Palácio do Planalto. Uma tentativa desesperada de blindar a presidente pouco antes do impeachment.
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